domingo, 9 de setembro de 2012

O Melhor


Estamos obcecados com "o melhor".
Não sei quando é que começou esta mania, mas hoje só queremos saber do "melhor". Tem que ser o melhor computador, o melhor carro, o melhor emprego, a melhor dieta, o melhor par de sapatos, o melhor vinho. 
Ser bom não basta.
O ideal é o top, aquele que deixa os outros para trás e que nos distingue, nos faz sentir importantes, porque, afinal, estamos com "o melhor". Isto até que outro "melhor" apareça, que é uma questão de dias ou de horas até isso acontecer.
Novas marcas surgem a cada instante.  Novas possibilidades também. E o que era melhor, de repente, nos parece ultrapassado, modesto, aquém do que podemos ter.
O que acontece, quando só queremos o melhor, é que passamos a viver inquietos, numa espécie de insatisfação permanente, num eterno desassossego.
Não desfrutamos do que temos ou conquistamos, porque estamos de olho no que falta conquistar ou ter. Cada campanha publicitária convence-nos de que merecemos ter mais do que temos. Cada artigo que lemos faz-nos imaginar que os outros (ah, os outros...) têm uma vida melhor, compram melhor, amam melhor, ganham melhores salários. Depois não há como uma pessoa relaxar, porque temos de correr atrás, de preferência com o melhor par de sapatilhas.
A questão não é acomodar ou se contentar sempre com menos. Mas o menos, às vezes, é mais do que o suficiente.  Se não conduzo a 140km/h, preciso realmente de um carro com tantos cavalos?  Se gosto do que faço no meu trabalho, tenho que subir de posto na empresa e assumir o cargo de chefia que vai me matar de stress porque é o melhor cargo da empresa?  E aquela TV de não sei quantas polegadas que acabou com o espaço que tinha meu quarto? O restaurante, onde sinto saudades da comida de casa e vou porque tem o "melhor chef"? Aquele creme que usei durante anos tem de ir para a reforma agora porque  existe um melhor e dez vezes mais caro?  O cabeleireiro do meu bairro tem mesmo que ser trocado pelo "melhor cabeleireiro"?
Tenho pensado no quanto esta busca permanente do melhor tem nos deixados ansiosos e nos impedido de desfrutar o "bom" que já temos. A casa que é pequena, mas nos acolhe. O emprego que não paga tão bem, mas nos enche de alegria. A TV que está velha, mas nunca avariou. O homem que tem defeitos (como nós), mas nos faz mais felizes do que os homens "perfeitos". As férias que não vão ser em praias paradisíacas, porque o dinheiro não deu, mas vai me dar a oportunidade de estar perto de quem amo...  O rosto que já não é jovem, mas carrega as marcas das histórias que me constituem. O corpo que já não é mais jovem, mas está vivo e sente prazer.
Será que precisamos mesmo de mais do que isto? Ou será que isto já é o melhor e na busca do "melhor" nem percebemos?
"Sofremos demais pelo pouco que nos falta e alegramo-nos pouco pelo muito que temos." (Shakespeare)

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